Domingo, 27 de Maio de 2007

" São uns cobardes "

O único jornalista que conseguiu infiltrar-se no movimento skinhead espanhol fala das ligações dos neonazis com o futebol, com a polícia, a música e a extrema-direita portuguesa. E como os jovens cabeças rapadas são usados por interesses mais altos. Leia aqui a entrevista na íntegra
Luís Ribeiro, em Madrid / VISÃO nº 738    26 Abr. 2007
Antonio Salas não revela o seu verdadeiro nome nem destapa a cara para a foto. Sabe que a caça começará quando a sua identidade for pública. O jornalista viveu durante quase um ano no meio dos neonazis, como se fosse um deles, a gravar tudo com uma câmara oculta. O seu livro, Diário de Um Skin, foi esta semana editado em Portugal pela D. Quixote, depois de ter sido o maior best-seller em Espanha, em 2003. Ali se descreve um mundo de incoerências, em que latinos idolatram um Hitler que os consideraria sub-humanos. Em que o futebol se transforma num palco político e a prisão numa catapulta para a lenda. E onde se inspira ódio e expira violência.

De onde vem o ódio dos skins?
Do medo. Têm muito medo do que não conhecem e do que não compreendem: homossexuais, estrangeiros, outras raças. Mas esse é um ódio que tem de ser renovado constantemente, senão desaparece.

Honra e lealdade são duas das palavras mais repetidas por neonazis. Praticam-nas?
Na realidade, sim. Existem traidores, como em todos os grupos. Mas uma das coisas que mais me surpreendeu (e surpreenderam-me muitas coisas) foi a irmandade, a lealdade entre eles. O que me fez sentir culpado e ter de recorrer a um psiquiatra, quando terminei a investigação - por causa desse sentimento de culpa de ter atraiçoado os meus camaradas, que me trataram com uma lealdade e uma fidelidade que me envolveram.

Diz que 90% dos neonazis se distanciam dos movimentos quando conseguem uma relação estável ou uma família. O nazismo é apenas uma forma de preencherem uma vida vazia?
Eles entram muito jovens e quando atingem a sua primeira relação emocional, quando se casam ou têm filhos, ou quando têm o seu primeiro trabalho sério e entram dentro do capitalismo, compram um carro ou uma casa, aos poucos vão-se desligando do movimento skin.

Convertem-se ao capitalismo que tanto odeiam?
Claro. Tal como os jovens comunistas. Quando me infiltrei nos movimentos de extrema-esquerda, percebi que o sentimento desses jovens idealistas que querem acabar com o sistema se alivia quando têm o seu primeiro carro ou casa. O idealismo dos skins é igual: um fenómeno universal de juventude de luta por ideais.

Escreve que muitos pertencem às classes média-alta e alta. A opção deles também nasce na educação? Os pais alheiam-se ou são coniventes?
Responsabilizo os pais por todos os skins. É impossível que um filho se converta num cabeça rapada e o pai não se dê conta. Se rapa o cabelo, se se enche de tatuagens de suásticas, qualquer pai se apercebe. Acontece que muitos skins provêm de famílias fascistas, que continuam essa tradição de extrema-direita, trocando Salazar ou Franco pela suástica e pelo III Reich.

A ideologia está irremediavelmente cravada nos jovens que conheceu?
Todos têm saída. O mais importante do meu trabalho é ter contribuído para que centenas de rapazes e raparigas abandonassem o movimento, como percebi pelos mails que me mandaram.

Mas largar o movimento não significa deixar de ser racista ou xenófobo...
Claro. O racismo está intimamente ligado ao nacional-socialismo. A minha conclusão foi que uma imensa maioria de rapazes e raparigas são idealistas que realmente acreditam em todas estes disparates da supremacia da raça branca, da Europa branca. Mas uma das coisas que os fez aperceberem-se do absurdo foi saberem quem está por detrás. E foi esse o meu objectivo. Escrevi o Diário de um Skin para eles, para ir mais além do que eles próprios conhecem, explicar-lhes como são utilizados pelos líderes dos clubes de futebol, dos partidos, do tráfico de mulheres. [Um dos cabecilhas que Antonio Salas conheceu é dono de vários bordéis e recruta mulheres africanas e brasileiras, apesar do seu discuros anti-prostituição e anti-imigração.]

Esse racismo é movido por experiências pessoais?
Não porque tiveram uma experiência pessoal, mas porque crêem que a tiveram. O discurso que apreendem todos os dias diz que os imigrantes ocupam o seu posto de trabalho (mesmo que seja um trabalho que nem um português nem um espanhol querem ocupar). A música e as publicações neonazis alimentam esse ódio, para que não deixem de pensar que têm essa experiência pessoal todos os dias.

Os skins mostram-se muito violentos, mas aparentemente só quando estão em grupo.
São uns cobardes, sim. A mim não me preocupa encontrar-me com um ou dois. Todas as suas acções são feitas em manada. São como os lobos: apenas caçam em grupo. O Mário Machado, por exemplo, tem mesmo um blog que se chama Homem Lobo. No fundo, são profundamente cobardes. Há excepções, claro. Alguns cometem assassinatos sozinhos, mas esses são apenas psicopatas.

Diz que um dos seus objectivos é «triunfar em democracia sem acreditar nela». Têm consciência das suas incoerências?
Não. Tal como acontece nas seitas, alimentam-se das suas próprias publicações, revistas, do que lhes dizem os seus líderes, e não têm contacto com outros grupos. Logo, nunca se dão conta das contradições. Quando estão lá dentro, a música que ouvem é a música Oi! [de cariz nazi], as revistas que lêem são nacional-socialistas, as manifestações a que vão são de extrema-direita. Daí absurdos como haver cabeças rapadas com traços indígenas no Chile, no Uruguai, no Brasil. É um absurdo. Os próprios espanhóis e portugueses são hispânicos, sub-humanos de acordo com a ideologia nazi. Nós sabemos isso, mas lá dentro estão tão embriagados por essa sensação de manada e de poder que não se apercebem de nada.

No livro, fala de uns jovens da Galiza que tentam organizar, em Espanha, uma filial do Klu Klux Klan - um grupo fanático que odeia os países católicos e os hispânicos. Eles sabem isso?
Sabem, mas acreditam que pertencem a essa raça branca supostamente superior. Por exemplo, quando se conhece um skin latino-americano, percebe-se a sua ascendência indígena. Mas eles acreditam que são descendentes do sangue branco de Fernando Cortéz, do sangue branco que levaram os espanhóis e os portugueses. Buscam uma justificação, porque é sedutora a sensação de pertencer a esse clã. Por muito absurdo que seja.

Outra inconsistência é concordarem com acções terroristas islâmicas, apesar de todo o seu ódio aos mouros. Isso notou-se no 11 de Setembro?
No 11 de Setembro, muitos nazis espanhóis felicitaram os terroristas, por terem atacado o centro aconómico judeu dos EUA. Mais do que o integralismo islâmico, os nazis apoiam qualquer causa contra os judeus, como a Palestina. O inimigo do meu inimigo é meu amigo.

Mas depois veio o 11 de Março, em Espanha...
Pois, aí aumentou o ódio aos árabes. Mas continuaram a participar em manifestações pela Palestina, contra os judeus.

No meio da sua admiração por Hitler, os neonazis espanhóis e portugueses têm consciência de que o seu ídolo estaria longe de os considerar membros de pleno direito da raça ariana?
Creio que não. Para isso, teriam de ler toda a informação que, acreditam, está manietada pelos judeus. Por exemplo, conheci um tipo que estava a aprender alemão para poder ler «A minha luta» na sua língua original. Chegou a lavar o livro, porque podia ter passado por mãos judias. Eles não se alimentam das fontes de informação que consideram estar contaminadas: recorrem aos trabalhos dos revisionistas. Essa informação diz que não existiram as câmaras de gás, o holocausto, Hitler via toda a Europa como a raça branca pura. Não fazem ideia que nós, latinos, iríamos passar maus momentos às mãos de Hitler.

A liderança dos neonazis é um monstro com várias cabeças dispersas. Sentiu que eles, como o povo judeu, esperam por um messias?
Eles não, mas os seus líderes sim. Na verdade, Espanha e Portugal são os dois últimos redutos da Europa em que a extrema-direita não conseguiu uma representação parlamentar - e esperemos que assim continuem. No resto do Continente, conseguiram, e usando o mesmo cavalo de batalha que os nazis portugueses: a imigração, neste caso das antigas colónias e do Brasil. Essa suposta ameaça é do que os líderes políticos se servem para conseguir votos. Mas todos os níveis políticos da extrema direita procuram por todo o mundo um líder que seja o novo fuhrer. Aliás, há até quem tenha deixado crescer aquele bigodito para se aproximar, pelo menos esteticamente, da imagem de Hitler.

Porquê essa excepção de Portugal e Espanha?
Porque sofreram a ditadura durante muitos anos. Ainda não desapareceram as pessoas que viveram nesses regimes. Embora os filhos dos seguidores sejam muitas vezes os que integram movimentos skins, também há vítimas que sabem o que ocorreu nessas alturas.

As ligações ibéricas são muito fortes?
Absolutamente. Trabalham lado a lado em concertos e manifestações. Têm as mesmas distribuidoras discográficas. Um português que queira adquirir bibliografia revisionista tem de ir à Livraria Europa, em Barcelona.

E há diferenças entre skins portugueses e espanhóis?
Os grupos portugueses são mais consequentes e menos cobardes, na hora das suas actuações públicas. A sua presença mediática também é muito maior. Em Espanha, existem personagens que poderiam ser, como o Mário Machado, elementos de liderança, que cumpriram pena por homicídio, mas não tiveram a mesma presença nos meios de comunicação. Em Portugal, têm mais presença mediática e são mais activos do que os espanhóis.

Essa visibilidade tem consequências: Mário Machado está novamente preso.
Sim, e eles lá dentro não têm vida fácil. Mas, na maioria dos casos, um skin que sai da cadeia continua a ser um imbecil. A prisão serve para se afirmar no movimento, para ganhar poder. O Machado era apenas um porteiro de discoteca e converteu-se num líder político.

Esses exemplos não fortalecem o movimento, ao dar-lhe novos mártires?
É possível que sim, sobretudo em Portugal, por causa da tal projecção nos media. Em Espanha, personagens como Machado, que cumpriram pena, não têm visibilidade nos meios de comunicação. São conhecidos, mas apenas por quem já está dentro da comunidade.

Culpa dos jornalistas?
Nós temos a obrigação de dar a conhecer a realidade social. É para isso que trabalhamos. No caso de Diário de um Skin, recebi algumas críticas, por lhes dar publicidade. Mas a resposta a isso está nas centenas de mails que recebi de miúdos a largar o movimento por se aperceberem que aquilo não era exactamente como lhes contavam.

Qual a importância da Internet nestes movimentos?
É fundamental. Antes, os grupos neonazis só tinham as fanzines. Os sites nacional-socialistas foram uma revolução tremenda. Os grupos portugueses e espanhóis não tinham nenhum contacto entre si. Entretanto, internacionalizaram-se, organizam campanhas juntos, vendem os seus produtos através da Net.

Os movimentos neonazis estão a ganhar força?
Rotundamente sim. Estão a crescer de forma directamente proporcional ao aumento da imigração. Isso é imparável. Quantos mais imigrantes chegam à Europa - e duas das portas fundamentais são Portugal e Espanha -, mais pessoas se aproximam dos grupos racistas. O crescimento é difícil de quantificar. Mário Machado fala em 400% de aumento nos últimos anos. Isso não me surpreende.

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Acredita que um dia vão atingir um poder efectivo?
Gostaria de acreditar que não. Sendo certo que a imigração é um problema para a Europa, outras organizações não-fascistas, integradoras, compensam os neonazis. Haverá cada vez mais nazis, mais violência, mais mortos, assasinatos, agressões a imigrantes. Mas também haverá uma maior consciência de que a violência não é solução.

Quem apoia financeiramente estes grupos?
Distribuidoras discográficas e editoriais, clubes de futebol (que também se alimentam deles: as claques ultra são das maiores consumidoras de material de merchandizing). E este apoio é descarado e absoluto.

Por que razão é que os clubes de futebol ajudam as claques com tendências neonazis?
Essa é outra das coisas que não percebia, antes da investigação. Primeiro, porque muitos dos membros de um grupo ultra, como os 1143, em Portugal [Sporting], são sócios do clube. Votantes, que podem decidir quem vai ser o próximo presidente. No caso dos Ultrassur, do Real Madrid, eles apoiavam o «seu» candidato. Mais: eu saí literalmente afónico do estádio, a apoiar a equipa a gritar durante 90 minutos. Ninguém grita mais alto dos que os ultras. E isso até os jogadores notam, sobretudo quando jogam fora. Não lhes importa [aos clubes] que depois, fora do estádio, matem um negro. Daí que os jogadores posem para a fotografia com produtos dos ultra, como fizeram Figo, Guti, Casillas, Raul. Quanto vale um spot publicitário destes? Quanto vale a imagem de um Figo a anunciar os produtos que vendem?

Os clubes fazem tudo o que podem para ajudar a suprimir os neonazis das suas claques?
Só quando matam alguém. Quando ocorre uma morte, os meios de comunicação dão-lhe uma repercussão mediática e os clubes vêem-se obrigados a fazer alguma coisa. Mas é muito difícil para um clube renunciar aos seus ultras. Pelo apoio, pelo merchandizing que eles compram. E também por medo. Há o caso de jogadores que foram agredidos por ultras, como aconteceu no Atlético de Madrid, por não lhes dar apoio público. Esse também é um factor a ter em conta.

O futebol é o que provoca a violência ou apenas uma justificação?
É só uma justificação. Essa violência está presente em qualquer acto da comunidade skin. As letras das canções, os discursos políticos, o ódio que se renova todos os dias. Além disso, o futebol é também um meio de fazer passar a imagem. As bancadas transformam-se, nesse momento, numa TV para o mundo. Eles sabem que num jogo há mais câmaras do que em qualquer manifestação de neonazis. Uma simples faixa contra a imigração será vista em todo o mundo.

Qual é a importância da música no movimento?
Fundamental. A primeira vez que me apercebi dessa importância foi com um grupo português, os Evangélico. Fazem parte da Ordem Lusa, uma das organizações mais antigas em Portugal. A música é o meio para transmitir a mensagem aos jovens. Um rapaz de 16 anos aborrece-se com um encontro político sobre a história da supremacia racial. Num concerto, a mensagem é transmitida com muito mais força e energia do que 40 meetings políticos. A música dos grupos patrióticos e nacionalistas não é apenas música, é propaganda política.

Qual foi o sentimento que mais experimentou, na sua relação com os neonazis?
O medo. Quando ouço a palavra «medo», lembro-me de La Bodega [um bar de skins, nos subúrbios de Madrid, onde Antonio esteve]. Entrar com uma câmara oculta num sítio com 200 cabeças rapadas... Não sou nenhum valentão. Passei muito mal.

Sentiu muitos momentos de empatia com eles?
Se estamos durante um ano a conviver dia e noite com um grupo de pessoas, a comer com eles, a dormir com eles, a conhecer os seus pais, eles tornam-se os nossos camaradas. Cria-se um vínculo afectivo e eu vivia com a ideia de que os estava a enganar. Houve dois ou três momentos em que senti uma tentação enorme de lhes dizer: «Sou um jornalista que te está a gravar com uma câmara oculta.»

Hoje continua a viver com medo...
Sim. Andam à minha procura por toda a Espanha. Mas, apesar de tudo, aqui em Espanha, eles já se aperceberam que é mais seguro matar vagabundos. As estatísticas mostram que aumentaram o número de homicídios de vítimas sem papéis. O que coincide com o aumento do número de nazis nessa zona.

Foi um polícia que o denunciou aos neonazis. É a prova de que eles estão infiltrados em sectores importantes da sociedade?
Sim. A maior prova é o caso de Lucrecia Perez, assassinada [em 1992] por um guarda civil neonazi. Os skins gostam das armas, do mundo militar, da violência, da hierarquia. Uma imensa maioria, como o caso de Machado, é segurança porque não conseguiu entrar na polícia. Há uma relação directa com as forças militares. Há muitas famílias de militares que apoiaram Franco e Salazar... Os seus filhos e netos tentam seguir os seus passos.

Qual foi o seu preconceito que se revelou mais errado?
Que eram um bando de ignorantes e que era fácil enganá-los. Não fazia ideia das suas ligações ao futebol e ao Islão, por exemplo.

Confessa, no livro, que uma das razões que tornaria este trabalho mais difícil é a sua extrema distância à ideologia nazi. Agora que os conhece melhor do que nunca, despreza-os mais ou compreende-os melhor?
Entendo porque fazem o que fazem, porque pensam o que pensam, mas sei que estão enganados.

publicado por Notasenroladas às 13:18
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