Terça-feira, 5 de Junho de 2007

Eduardo Prado Coelho

 


A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como
Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que
vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a
suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na
farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo.
Nós como matéria-prima de um país. Porque pertenço a um país onde a
ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais o que o euro. Um país
onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que
formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser
vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde
se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE
ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares
dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse
correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser
útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram
comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de
IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os
directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco
interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois
reclamam do governo por não limpar os esgotos.
Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é
muito chato ter que ler) e não há consciência nem memória política,
histórica nem económica. Onde os nossos políticos trabalham dois dias por
semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres,
arreliar a classe média e beneficiar a alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas
podem ser compradas, sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa
de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um
inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge
que dorme para não dar-lhe o lugar. Um país no qual a prioridade de
passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas
coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes. Quanto
mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto
como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para
não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou
eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente
que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não.
Não. Já basta.
Como matéria-prima de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito
para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa.
Esses defeitos, essa CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA congénita , essa
desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até
converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade
humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e
honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR
NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte...
Fico triste. Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximo
que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima
defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não
tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto
alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios
que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu
Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força
e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa.
E enquanto essa outra coisa não comece a surgir de baixo para cima, ou de
cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos
igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente abusados.
É muito bom ser português. Mas quando essa Portugalidade autóctone começa a
ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação,
então tudo muda..
Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um
Messias.
Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada
poderá fazer. Está muito claro... Somos nós que temos que mudar. Sim, creio
que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos
a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes
com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois
desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para
castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu
comportamento e que não se faça de mouco,
de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O
ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.
AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.
E você, o que pensa?.... MEDITE!
EDUARDO PRADO COELHO

publicado por Notasenroladas às 09:45
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2 comentários:
De villahostilina a 8 de Agosto de 2007 às 22:53
Exmo Senhor Eduardo Prado Coelho,


Li com muita atenção o seu texto de análise que é uma mensagem de alerta para toda a gente que fala Português. Para os que ainda cá estão e para os que ainda não estão,mas quando voltarem (uma grande maioria), continuam a deitar o lixo para o chão e a cuspir para o lado.

Eu não leio jornais. Ás vezes dou uma olhadela para ver se vislumbro alguma mudança nos genes dos portugueses. E como não encontro nada fico a pensar se o meu DNA não irá ficar igual ao dos outros.

Neste período ainda não sinto nada, pois vejo os outros muito e muito interessados na “ADSL” para verem se descolam virtualmente o seu destino, e eu não me sinto motivado a ir por esse caminho.

Contudo sinto que vivo num mundo onde eu não consigo acompanhar a esperteza dos portugueses e, às vezes, ao ver alguns programas de televisão sobre o que se passa neste País (e não só), sinto-me classificado como se eu fosse imbecil, extraterrestre ou mero macaco.

No dia a dia eu protesto sempre, ou quase sempre, em relação ao que xvejo de anormal, de irresponsável, de injusto. Pouco adianta e ainda fico nal visto ou debaixo de mira, como alvo a abater oportunamente.

Também me revolta o abuso que se faz das “coisas” dos outros (seja lápis, papel, etc etc.)como se isso não fosse deles também.

Mas desde tempos imemoráveis que os portugueses mantém o estilo de “feirante”(com o devido respeito para os feirantes sérios). Já quando habitavam fora das ameias dos Castelos dos senhores feudais, os portugueses roubavam, cuspiam para o chão, eram quase animais falantes sem regras de comportamento e sem responsabilidade.

Acho que provavelmente desde aí que fornicaram de tal modo a vida do seu ADN, que ele deu no que temos agora.

Houve um tempo em que eu acreditava que a nosa salvação como Povo estava na capacidade das mulheres gerarem e educarem novos homens que fossem capazes de mudar o rumo deste pequeno País. Mas as mulheres, na sua maioria, iludidas com o evento da sua “libertação” estão só a imitar tudo o que os homens têm de mau e de pior.. Só pensam no aspecto exterior (das coisas da vida e do seu próprio), fumam, bebem, enfeitam-se e às vezes ganham fortunas em trabalho literalmente horizontal e curvelínio.

Os homens, ai os homens, como eles estão todos doutorados em esquemas políticos, desportivos, económicos, de saúde(?), de engate, de fraudes e de ilusão!

Resumindo, a sua mensagem está certíssima e encaixa perfeitamente no modelo da maioria dos portugueses.

Mas não entendo como é que os “nossos políticos” não compreendem que é preciso ajudar o Povo a mudar, a eliminar os vírus do programa que gravaram no CD do seu comportamento.

Provavelmente muitos deles sabem qual devia ser o caminho, mas não lhes convém mudar a situação, o bloqueio, caso contrário perdem os tachos.

Quanto a existir democracia é mentira, pois o que existe é tão simplesmente uma contagem aritmética de papelinhos de votos de pessoas que não sabem que votam, nem quem são verdadeiramente os votados.


Eu, muitas vezes me vejo ao espelho e também não gosto do que vejo e por isso procuro reclamar comigo mesmo.


Exmo Sr. Eduardo Prado Coelho vamos ter a esperança de que venha alguém do espaço sideral que nos ajude a mudar a situação.




Joaquim Manuel Brandão dos Santos

























De Notasenroladas a 15 de Agosto de 2007 às 14:17
O format é impossível e a nossa essência mantêm-se sempre. Nós como indivíduos alterando o nosso comportamento em alguns aspectos estaremos a alterar o conjunto. Já repararam como fica o local em que se realiza uma feira após o fim desta? Reparem.
Cumprimentos e obrigado


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